AMARELAMOS, MESMO?
O Brasil colheu louros nesta Olimpíada. Podem falar que era esperado mais dos atletas, que não foi excepcional o desempenho dos preferidos e que os brasileiros amarelam. E ainda bem que amarelam! Amarelar é correr da raia por medo, mas é também amadurecer. Só amadurece o que amarela, depois de verde. Amarelo e Verde foram cores presentes nos uniformes de vários países, assim como também o Azul. Nenhum brasileiro “azulou” ou fugiu. O que se viu foram brasileiros e brasileiras correndo na raia, e não da raia. Atletas levantando, caindo, sentados, ajoelhados, de olhos abertos, correndo, pulando, assustados ou fascinados, sorrindo e chorando, abraçando-se, saudando filhos recém nascidos no Brasil, beijando o pódio... Viveram, e, por isso, verdadeiramente, amarelaram. Amarelar é conseqüência cármica. Acontece como fruto, efeito, de nossas ações. Todos que competiram amarelaram porque cresceram. Seja por alegria ou por tristeza. Ambas nos acompanham na vida. Uma de cada vez. Sofrimento e felicidade são estados de espírito que a gente tem se há o apego excessivo aos momentos de alegria ou de tristeza. Atletas precisam se desapegar de lembranças e viver o presente, apesar da mídia insistir em entrevistas que buscam recordar de competições passadas, com momentos de maior tristeza. Será este o gosto dos que assistem e torcem pelo sucesso dos atletas? Duvido. Na vida, o sucesso vem após sucessivas tentativas. Comemoremos todas as tentativas! Horas e horas de esforço pessoal ou coletivo recompensadas por uma boa performance, com ou sem medalhas. Se mulheres e homens verdejaram, azularam, amarelaram, ou tiveram um branco na hora agá, tudo é Brasil. É a nossa bandeira. São as nossas cores.
CORAÇÃO DE ATLETA
Se nos pincelamos de bronze, nos prateamos sob a lua ou nos douramos ao sol, pouco importa. O que importa é o coração brasileiro. É dar cor à ação. Os nossos atletas deram muita cor à ação. Prata e bronze não são medalhas de consolação: também são louros de vencedores. Que a mídia possa entender isso para não sacrificar alguns. Não é hora de expiações. É hora de estímulo e cooperação para investir no esporte. Semear, plantar e depois colher em quatro ou oito anos. Já temos muitos atletas de alto nível. Alguns mostraram que nem tudo que cai na rede é peixe: pode ser uma bola prateada que balança o fundo da rede, no campo delas, ou, uma bola de bronze que sacode a rede deles. Bolas de bloqueio de rede pelas meninas douradas e pelos meninos prateados da quadra. Os saques dos meninos prateados e bronzeados da praia, sob o sol ou água que cai do céu, em Pequim. Nem sempre a água cai do céu, às vezes é o cielo que mergulha na água, com ares de imperador romano. Deu-se a César o que era de César, e ele nos deu a bonita imagem do nosso Hino cantado com lágrimas de superação, sendo aplaudido em pé por todos, no primeiro ouro que o louro conseguiu, depois do bronze. Muita colheita de louros e triunfos pelo Brasil, embaixo d’água e também por cima. Meninos e meninas conseguiram usar o vento a favor. Eles, na categoria star (que precisava, por coerência, ser prata) e elas na regata, provando o valor da mulher brasileira, bronze, que luta e planeja para conseguir seus objetivos. Em outras lutas, acompanhamos movimentos fortes e vigorosos, numa sintonia perfeita, no judô bronzeado dos meninos e da menina, que colocou nos “quadros” a primeira medalha feminina do Brasil. O taekwondo revelou mais uma mulher de bronze, guerreira e amante da ciência do esporte. Bronze, na gíria lusitana, é mulher bonita, atraente, segundo o Aurélio. Assim como as brasileiras vencedoras. Com licença de todos os meninos vitoriosos, esta Olimpíada de Pequim foi uma grande conquista da mulher brasileira. Mulheres que abriram caminhos para um novo tempo do esporte, em modalidades pouco valorizadas em nossa cultura: atletismo, vela, judô, taekwondo e mais uma vez, elas confirmaram seu valor no futebol e no vôlei. Mulheres jogaram, lutaram, saltaram, tropeçaram na trajetória por varas desaparecidas misteriosamente, enfrentaram obstáculos, caíram e levantaram, voaram “maggicamente” em saltos seguros e belos. Uma beleza plástica que nos deu mais sorrisos e lágrimas de ouro com beijo no degrau do pódio. Encontros emocionados entre atletas e técnicos. Pessoas, amigos, profissionais e familiares lembrados que participaram das campanhas pessoais e foram importantes para elas e para eles. Portas foram abertas. Somos um País feliz porque os louros são colhidos por atletas de cores e raças diferentes. De um sexo e de outro. Do masculino ao feminino, todos competem, muitos se desafiam, outros enfrentam imprevistos e alguns vencem. Esse é o ciclo dos esportes, quaisquer que sejam as modalidades. Dos mais conhecidos, aqueles que são produtos de consumo e de exportação, aos menos falados, mas nem por isso de menor valor. Todos estão na Olimpíada.
LIÇÕES DE PEQUIM
O que podemos aprender, coletivamente, com essa experiência? O que Pequim demonstra, hoje? Parece que se descobriu que o físico, a mente e o espírito são unidades interdependentes do ser humano e que devem ser tratados de modo integrado pelos atletas. Que é necessário incentivar e investir em modalidades diversas de esporte, valorizar os atletas de alto nível e propiciar o surgimento de novos atletas de forma planejada. Como fazer isso? Nas escolas, parques, bairros, clubes, centros de esporte, universidades. Com intercâmbios em outros países, financiamento de estudos científicos aplicados ao esporte, organizando equipes multiprofissionais, aumentando o número de competições locais, aplicando recursos vindos de impostos em projetos sérios que beneficiem os atletas, incentivando empresas no patrocínio aos reconhecidos e aos promissores. E, principalmente, é preciso mostrar aos dirigentes brasileiros que a integração entre Esporte, Saúde, Cultura e Educação é possível, e que bons exemplos podem ser seguidos e adaptados. Hoje, um negócio da China. Amanhã, ao som do Big Ben.... Bem, e mais tarde, quem sabe, com o Cristo de braços abertos abençoando uma nova Olimpíada. Que Deus permita que nossos atletas possam amarelar sempre, lá ou aqui!